X-Men: o Confronto Final

Durante os últimos meses, fãs da franquia cinematográfica e dos quadrinhos viveram dias tensos à espera deste “X-Men: o Confronto Final”. Tudo porque o homem responsável pela adaptação dos mutantes para a telona, o competente diretor Bryan Singer, resolveu abandonar o barco e migrar para “Superman – o Retorno”. Para tornar o drama ainda maior, seu substituto tinha um currículo bastante duvidoso: Brett Ratner, o homem por trás de filmes tão díspares quanto “Dragão Vermelho”, “Um Homem de Família” e “A Hora do Rush”. Mas, felizmente, o novo comandante soube cuidar do excelente material deixado por seu antecessor. O terceiro (e último) episódio de “X-Men” pode não ter o brilhantismo de “X-Men 2”, mas fecha com chave de ouro a série que fez ressurgir das adaptações cinematográficas de histórias em quadrinhos nos últimos anos.

 

O principal mérito de Ratner é não tentar “se meter” demais no que já estava bom. Sem grandes arroubos, o diretor dá continuidade à saga exatamente do ponto onde “X-Men 2” terminou. Para alegria dos fãs, entupiu o novo filme com heróis ausentes das produções anteriores, como Fera e Arcanjo. E, felizmente, teve em mãos um roteiro bastante inteligente e que, assim como nos anteriores, administra bem duas histórias paralelas, no caso a criação de uma “cura” para o gene mutante e o renascimento de Jean Grey como a Fênix.

 

A tal “cura”, aliás, consegue ampliar ainda mais o debate aberto nas produções anteriores. Com a possibilidade de tornarem-se “normais”, os mutantes ficam divididos entre aceitar a ajuda e continuarem sua vida longe de serem alvos de preconceito, ou renegarem o que são em prol uma sociedade intolerante com os diferentes. Se em “X2” os pais do Homem de Gelo o questionaram se ele não “poderia deixar de ser um mutante”, aqui vemos uma criança arrancado do próprio corpo sinais de sua genética diferenciada.

 

Apesar dos métodos poucos ortodoxos (alguns até fazendo referência a atos terroristas), os ideais de Magneto (novamente vivido pelo excelente Ian McKellen) não são totalmente condenáveis. Como judeu sobrevivente do Holocausto, o suposto vilão sabe como é ser renegado e teme uma exclusão em massa dos mutantes. O embate com o professor Xavier (Patrick Stewart) rende discussões até filosóficas e que podem ser aplicadas até em nossa realidade. Não são poucos os que referenciam o preconceito contra mutantes com o homossexualismo ou raças e credos tidos como inferiores.

 

Emoldurado com ótimas cenas de ação (a batalha final é um dos melhores momentos da série), “X-Men: o Confronto Final” só é prejudicado pelo excesso de personagens e sua curtíssima duração. Em pouco mais de uma hora e quarenta minutos fica difícil desenvolver tanta gente, e a valorização de novos heróis e dos protagonistas Wolverine (Hugh Jackman) e Tempestade (Halle Berry) deixam Ciclope, Colossus e Vampira, entre outros, com pouco espaço em cena. Nada que tire o brilho de uma produção inteligente, divertida e provocativa. E, por incrível que pareça, essencialmente comercial.
Muito aquém do esperado

Nem muito bom, nem muito ruim. A adaptação de “O Código Da Vinci” para os cinemas pode não ser um desastre completo, mas está longe de ser provocativo como livro de Dan Brown. Para quem não leu a obra literária o resultado pode ser ainda pior, devido à quantidade excessiva de reviravoltas na trama, já os adeptos das teorias mirabolantes sobre o lado obscuro da vida de Jesus Cristo devem até se agradar do resultado final. Como milhões de pessoas pelo mundo devoraram o texto de Brown o sucesso nas bilheterias está garantido – e ninguém esperava êxito diferente para “Da Vinci”. Ou alguém teve a pachorra de considerá-lo como um novo clássico do cinema?

 

Se o livro poderia recorrer a páginas e páginas de explicações para situar no leitor sobre o que está acontecendo na história, o cinema não dispõe dessas ferramentas de auxílio. A quantidade de informações e explicações fica perdida no roteiro bastante fraco de Akiva Goldsman, responsável por maravilhas como “Uma Mente Brilhante” e porcarias como “Batman & Robin”. Na tentativa de condensar mais de 500 páginas numa história de duas horas e meia, o roteirista cria um texto prolixo e cheio de buracos.

 

Quem mais sofre com a falta de talento de Goldsman é a personagem da francesa Audrey Tautou, a criptógrafa Sophie Neveu. Ela faz às vezes do espectador perdido, inserida na trama apenas para perguntar a Roberto Langdon (Tom Hanks) e Sir Leigh (Ian McKellen) o que está acontecendo. A artimanha até faz certo efeito, mas deixa o filme carregado de longos e sonolentos diálogos. Para piorar, o uso excessivo de flashbacks não dão ritmo à narrativa e pouco auxilia na tentativa desesperada de explicar as informações escritas por Brown.

 

Se as virtudes do livro ficam perdidas no roteiro, os defeitos são ainda mais evidentes. Brown pode ter talento em conceber teorias, mas é reprovado na construção de personagens. Até o próprio protagonista se converte num personagem chato e com pouco a acrescentar. Afinal, se não fosse pelo auxílio de Leigh, como Langdon iria descobrir os segredos do Museu do Louvre? Aliás, quem é Langdon? Sabemos apenas de sua claustrofobia – que nada acrescenta a história e é esquecido após umas duas cenas.

 

Pior acontece com o policial Bezu Fache (Jean Reno) e Bispo Aringarosa (Alfred Molina), indivíduos com certa importância dentro da história, mas que se tornam figuras unilaterais e sem personalidade (como policial durão, Fache parece facilmente manipulável ao explicitar os motivos que o levaram a perseguir Langdon). Só salvam-se Sir Leigh e o trágico Silas, vividos de maneira exemplar pelos excelentes Ian McKellen e Paul Bettany – personagens mais complexos e com intenções não tão claras.

 

Covarde em tentar ao máximo aliviar as polêmicas do livro de Brown (Langdon parece defender o cristianismo mesmo após saber da “verdade”) e excessivamente longo (o filme parece que vai terminar umas três vezes antes do final definitivo), “O Código Da Vinci” parece ter sido concebido como uma aposta certeira. Iria fazer sucesso sendo bom ou ruim, então para que gastar neurônios produzindo-o?
Nas telas, os segredos de Da Vinci
Em apenas duas semanas, adaptação de best-seller atrai mais de dois milhões de espectadores e reativa polêmicas da obra

O público adora uma boa polêmica. Em 2004, quando Mel Gibson levou aos cinemas uma versão crua, violenta e ideologicamente diferenciada da morte de Jesus, a bilheteria fez de “A Paixão de Cristo” um dos maiores sucessos daquela temporada. Conseqüência de toda a celeuma em torno do filme durante sua produção, quando o diretor sabiamente divulgou fotos carregadas de sanguilonência e deu indícios de uma suposta acusação contra os judeus pela morte de Jesus. O bafafá foi tão grande que, quando o longa-metragem chegou aos cinemas, era quase obrigatório assisti-lo para participar das rodas de discussão. Dois anos depois é a vez de “O Código Da Vinci” estar em evidência.

 

A expectativa em torno da realização do filme, baseado no livro do americano Dan Brown, era justificável. Com mais de 40 milhões de exemplares vendidos pelo mundo (e uma série de sub-produtos em torno do tema, como “Decifrando o Código Da Vinci” e outros genéricos), a obra literária tornou-se conhecida mesmo para quem nem chegou perto de suas páginas. Seguindo o fluxo natural do mercado, logo apareceu alguém interessado em adapta-lo às telas. E para criar tornar o produto ainda mais interessante chamaram um diretor oscarizado (Ron Howard, de “Uma Mente Brilhante”) e um elenco de peso, encabeçado por Tom Hanks.

 

Nem era preciso toda essa publicidade grátis, mas logo após o anúncio do início da produção começaram a pipocar polêmicas sobre o teor da obra. No livro, e conseqüentemente no filme, Brown se apóia em teorias próprias para desvendar o que seria a maior farsa da história da humanidade: a vida de Jesus. Segundo o texto, Cristo teria se casado e tido filhos com Maria Madalena, sendo que esta o fazia companhia durante a Santa Ceia na qual revelou sua crucificação. O segredo deveria ter sido guardado por uma sociedade sagrada batizada de Priorado de Sião, que nas gerações seguintes foi composta por membros ilustres como Isaac Newton e Leonardo Da Vinci.

 

Brown pode ter seus talentos literários questionados, mas foi esperto o suficiente para vender bem seu negócio. A trama na qual se envolve o professor de simbologia Robert Langdon e a criptógrafa Sophieu Neveu é apenas um pretexto para apresentar suas idéias – que podem até ser inverossímeis, mas não menos intrigantes. O importante mesmo é provocar o leitor (e espectador).

 

E o que deu certo com o livro funcionou também com o filme. Em duas semanas, a versão película de “O Código da Vinci” já ultrapassou 500 milhões de dólares mundialmente. No Brasil, mesmo ofuscado pelos recentes lançados “Missão: Impossível 3” e “X-Men: O Confronto Final”, levou mais de duas milhões de pessoas às salas. Um público bastante diversificado. Como “filme obrigatório de 2006”, “Da Vinci” tem atraído não apenas fãs de cinema ou leitores iniciados da obra de Dan Brown. O próprio livro, aliás, voltou ao topo dos mais vendidos no país, onde já está há mais de 100 semanas. Não deixa de ser curioso: a tentativa de fanáticos religiosos (como o deputado paulista Salvador Zimbaldi) em impedir a exibição “O Código Da Vinci” no Brasil só ajudou a divulgar um produto que queriam renegar ao esquecimento.
Para rir um pouco...

 

Deputado quer proibir exibição de O Código da Vinci no Brasil

O filme, que entre outras teorias diz que Jesus casou com Maria Madalena e teve filhos com ela, tem estréia mundial no próximo dia 19.

 

No Brasil, nas Filipinas e na Índia, grupos e autoridades já tomaram as dores do público contrário às idéias do escritor norte-americano. O Vaticano e Opus Dei também são contra.

 

O advogado Affonso Pinheiro, em nome do deputado Salvador Zimbaldi (PSB-SP), dirigia-se nesta quarta-feira para o Fórum Regional de Santo Amaro, em São Paulo, para tentar pela segunda vez a proibição do filme no país.

 

Na semana passada, a medida cautelar contra a produtora e distribuidora Sony Pictures foi recusada na 2a. Vara Cível sob alegação de que não poderia ser atendida, já que a exibição do filme não confronta leis constitucionais.

 

Vejamos: o filme é uma das maiores superproduções de 2006, com elenco encabeçado por Tom Hanks, e é baseado num livro que vendeu mais de 40 milhões de cópias (no Brasil, está na lista dos dez mais vendidos há quase 80 semanas).

 

Comecei a ficar preocupado. Acho que o deputado vai conseguir impedir sua exibição.

A “missão impossível” de J.J. Abrams

Existe uma regra obrigatória para apreciar as virtudes de qualquer filme da série “Missão: Impossível”: esquecer a lógica. Não apenas por furos no roteiro, mas sim pela já famosa “imortalidade” do personagem principal. Todo mundo sabe que as peripécias do agente Ethan Hunt são impossíveis, uma afronta às leis da física e de fazer inveja ao Schwarzenegger dos tempos de “Comando Para Matar”. O astro novamente corre, pula, cai, sobrevive a tiroteios, bate em dúzias de capangas e sai ileso de explosões sem desmanchar o penteado. Como filme de ação, o terceiro episódio da saga protagonizada/produzida por Tom Cruise é um deleite para fãs. Então, quem estiver afim de um cinema cerebral deve ir até uma locadora e procurar outro título.

 

O diretor J.J. Abrams sabia disso quando assumiu a batuta de “Missão: Impossível 3”. Ao lado dos roteiristas Alex Kurtzman e Roberto Orci, seus parceiros na popular série televisiva “Lost”, resolveu criar uma trama fraquinha, de fácil compreensão. O público vai para a sala de cinema ver “M:I 3” para se divertir, assistir ao longa-metragem com um balde de pipocas e litros de refrigerante. É um “filme-espetáculo”, feito para entreter e nada mais. Mas, felizmente, Abrams sabe diferenciar o escapismo de sua produção de uma suposta falta de inteligência do público. Uma coisa é desligar o cérebro para aceitar os devaneios da produção, outra é mantê-lo desligado quando se acendem as luzes do cinema. O espectador não é burro, e conseqüentemente não quer ser tratado como tal.

 

Esta virtude faz deste o melhor filme da série “Missão: Impossível”. Não que seja grande coisa, até mesmo porque seus antecessores têm uma grande parcela de equívocos, mas cumpre com louvor sua promessa. Assim como as produções anteriormente dirigidas por Brian de Palma e John Woo, “M:I 3” novamente é povoado seqüências memoráveis de ação, mas agora envolto numa embalagem mais caprichada. A história é bobinha: depois de anos afastado da Impossible Mission Force, o super agente Ethan Hunt decide aceitar mais uma missão para salvar uma de suas aprendizes. Logo, porém, se vê envolvido numa trama mais complexa, atrás de um artefato chamado apenas de “Pé de Coelho” que muito interessa ao terrorista Owen Davian (Philip Seymour Hoffman, vencedor do Oscar de melhor ator deste ano por “Capote”). O que é o “Pé de Coelho” o roteiro não explica, só o descreve como “extremamente perigoso”.

 

Toda a trama se estabelece rapidamente, e logo somos brindados com tudo aquilo que esperamos do filme. Neste quesito, Tom Cruise novamente comprova sua denominação de astro. Como produtor, faz a ação girar em torno de seu personagem (até os parceiros de missão se surpreendem como a capacidade de Hunt), e transpira uma energia realmente convincente. Parece mesmo que Cruise está desesperado, correndo feito um louco atrás de seu objetivo.

 

O mérito de Abrams em “Missão: Impossível 3” é saber sua função neste circo. É um funcionário de Cruise, com a obrigação de deixar o patrão como centro das atenções. Por estes motivos, David Fincher e Joe Carnahan abandonaram a cadeira de diretor alegando as famosas “diferenças criativas”. E sem preocupar-se em criar estilo, faz um filme sob medida. Um grande feito, que há muito tempo deveria ter percebido pelos produtores da série de um outro agente. Aos poucos, Ethan Hunt vai tomando o vácuo deixado por James Bond.

Mission: Impossible 3
Dirigido por J.J. Abrams. Com: Tom Cruise, Philip Seymour Hoffman, Ving Rhames, Billy Crudup, Michelle Monaghan, Laurence Fishburne.

Seqüência tardia e desnecessária

Como é bom entrar em um cinema com expectativas negativas e se surpreender com um filme. Perceber que toda a desconfiança em torno de uma produção foi por água abaixo quando diretor, elenco e produtores pensaram no público e se empenharam para construir um produto de qualidade. Infelizmente, este não é o caso de “Instinto Selvagem 2”. Afinal, quem daria crédito para um filme adiado por 15 anos e que só saiu do papel quando sua protagonista precisou urgentemente de um produto para voltar à mídia? O resultado é justamente o esperado: uma grande bobagem feita somente para arrecadar dinheiro. Pode não ser um desastre completo, mas vai desagradar tanto os fãs de suspense como os espectadores mais interessados em ver Sharon Stone em poses, digamos, indiscretas.

 

A história é absolutamente a mesma do primeiro. Stone (linda e inexpressiva aos 48 anos) volta como a escritora Catherine Trammel, novamente acusada de assassinar um de seus amantes. Desta vez, porém, ela não é investigada por um detetive (que era interpretado por Michael Douglas), mas sim analisada por um psiquiatra, Michael Glass (David Morrissey). E só isso. Como era de se esperar, logo o médico é seduzido pela beleza da pseudocriminosa e fica entre o desejo e suas obrigações profissionais, enquanto os corpos se amontoam no rastro de Trammel.

 

É óbvio que a grande maioria dos interessados em “Instinto Selvagem 2” não está nem aí para a história. O importante é ver Stone cruzar as pernas e demonstrar outras habilidades sensuais. Por isso, passados pouco mais de 20 minutos, o filme descamba para o erotismo, mostra a protagonista quase sempre despida e sempre ávida por sexo. Sabendo disso, a loira fazia questão de afirmar em todas as entrevistas anteriores ao lançamento do filme que havia exigido dos produtores cenas mais picantes – muitas das quais ela afirma terem sido cortadas pelo diretor Michael Caton-Jones.

 

Mas é uma grande balela. Com exceção de seios, pernas e costas despidas e um pouco de lesbianismo, o filme é até inferior ao se antecessor neste quesito. Não há também uma química entre Sharon Stone e seu companheiro de cena. Diferentemente da rudez do “Atirador” de Michael Douglas, o doutor Glass vira uma marionete nas mãos de Trammel e em nenhum momento parece uma ameaça para os planos da escritora. Fica parecendo mais como um bobão feliz por desfrutar da beleza de sua paciente.

 

É complicado distinguir o que é pior: ver uma atriz bastante limitada (a única interpretação digna de nota de Stone é em “Cassino”, pela qual foi indicada ao Oscar) tentando desesperadamente recuperar a fama com os atributos físicos de personagens voluptuosas, mesmo estando à beira dos 50 anos, ou um diretor querendo dar uma aura inteligente para um roteiro acéfalo. Nem suspense, nem erótico. Os realizadores de “Instinto Selvagem 2” devem seriamente pensar em excluir o filme de seus currículos. Principalmente Sharon Stone. Era melhor ter ficado no limbo do que reaparecer de maneira tão estúpida.

 

Basic Instinct 2

Dirigido por Michael Caton-Jones. Com: Sharon Stone, David Morrissey, David Thewlis, Charlotte Rampling.

EM BREVE!!!!
O engajamento político e o panfletarismo de “V”

Existem várias formas de analisar os méritos de “V de Vingança”. Pode-se elogiar a primazia técnica da produção, realmente bem escrita e com efeitos especiais eficientes. Ou então louvar o filme como adaptação da obra-prima dos quadrinhos escrita por Alan Moore, que mesmo sem ser obcecadamente fiel deve agradar fãs e não-iniciados na história. Por fim, também há a chance de valorizar a coragem de contestar ações políticas de George W. Bush e Tony Blair com a sutileza de uma pata de elefante. Mas justamente nesta sua última virtude reside o principal defeito do filme: demasiado panfletário, “V de Vingança” pode ser ideologicamente maravilhoso para quem é adepto às suas críticas. Ao mesmo tempo é bastante sensacionalista aos que simpatizam com a atual política norte-americana.

 

A diferença de “V” para “Syriana” e “Boa Noite e Boa Sorte”, como exemplos de recentes filmes com posições esquerdistas e capaz de provocar acalorados debates, é que esta produção dos irmãos Andy e Larry Wachowski (responsáveis pela trilogia “Matrix”) é voltada para as massas, um filme de entretenimento e não exclusivo de um segmento mais engajado de espectadores. Por isso causou polêmica e foi até renegado por alguns críticos americanos mais conservadores.

 

O motivo de tanta revolta é compreensível. Como o próprio George W. Bush faz questão de frisar, estar contra sua política antiterrorista é estar a favor dos “inimigos”, e o filme leva à risca este pensamento. Neste caso, quem esta do lado inverso ao da liberdade é o mascarado autodenominado V (Hugo Weaving), contrário à repressão com a qual o ditador Adam Sutler (John Hurt) rege a Inglaterra num futuro não muito distante. Na noite de um 5 de novembro (data na qual o revolucionário Guy Fawkes tentou explodir o parlamento inglês no século XVII), o caminho de V se cruza com o de Envy (Natalie Portman, ótima), salva por ele de um estupro por asseclas de Sutler. A jovem ainda ganha um convite para assistir um espetáculo de camarote: a explosão de um monumento britânico, o início de uma onde de ataques que irão durar exatamente por um ano.

 

Apesar da figura remeter visualmente a outro ditador (Adolf Hitler), Sutler é a personificação perfeita de Bush. Utiliza o medo para justificar sua política fascista com outras nações e contra “pessoas diferentes” (negros e homossexuais, neste caso). Se nos quadrinhos as referências eram explícitas à dama de ferro Margareth Thatcher, os Wachowski voltaram seu tiroteio contra o presidente americano.

 

Estreante na direção, James McTiegue não é apenas uma marionete nas mãos dos pais de Neo. Deixa a pirotecnia de lado e se concentra nos personagens, em bons diálogos. Em alguns momentos fica até lento demais, o deve provocar sonolência em quem foi atrás de efeitos de bullet-time utilizados em “Matrix”. É, enfim, um filme bastante corajoso. Vai na contramão das produções acéfalas e com foco apenas em tiros, explosões e afins. E também não tem medo de ser tendencioso e defender de peito aberto uma posição anti-Bush, mesmo sabendo que isso poderia provocar um fracasso nas bilheterias e críticas pesadas. É que na saída do cinema todos os espectadores têm vontade de explodir prédios como faz V...
Um Woody Allen novo e melhor

“Ponto Final – Match Point” é o filme de por Woody Allen menos “Woody Allen” de toda a carreira do veterano diretor, com 70 anos de idade e mais de 30 filmes no currículo. A própria Nova York, antes palco quase obrigatório de suas produções, deixou de ser cenário desta história para dar lugar a Londres. O personagem principal não é um judeu neurótico de Manhattam, envolto em problemas que o ligam a uma gama de outros personagens igualmente problemáticos – tudo embalado com diálogos ácidos e cômicos.

 

Depois do fracasso de suas últimas empreitadas, como “O Escorpião de Jade”, “Dirigindo no Escuro” e “Igual a Tudo na Vida”, o cineasta mudou de ares. Na capital inglesa trocou a comédia pelo drama, sabiamente decidiu ficar apenas atrás das câmeras (Allen insiste em protagonizar seus filmes mesmo sendo bastante limitado como ator) e teve coragem de bancar uma história melancólica, povoada de personagens ambíguos e com os quais dificilmente o espectador irá se identificar.

 

Cansado do circuito mundial e ciente de suas limitações, o tenista Chris Wilton (Rhys-Meyers) decide trabalhar como professor do esporte de um clube da alta sociedade. Lá faz amizade com a família de um de seus alunos, o milionário Tom Hewett (Goode). Logo Chris estabelece um relacionamento com a irmã do novo amigo, Chloe (Mortimer), mas a situação muda quando o tenista conhece a noiva de Tom, a belíssima americana Nola Rice (Johansson), por quem se apaixona.

 

De modo bastante lento, Woody Allen apresenta seus personagens durante a primeira hora de filme com diálogos perfeitos e envolventes, mesmos quando estes ressaltam situações que, em princípio, pouco tem a ver com a trama principal. Mas aos poucos percebemos que Chris, Tom, Chloe e Nola não são exatamente os sujeitos aos quais somos apresentados no início da história, e a cada reviravolta o roteiro complica ainda mais a vida dos protagonistas até o surpreendente final.

 

Em doses homeopáticas o diretor deixa uma série de pistas no decorrer da trama, desde a primeira imagem apresentada no longa-metragem até frases soltas nas conversas do quarteto principal. O amor proibido entre Chris e Nola é apenas o piso de uma trama complexa e cheia de questionamentos morais. O diretor não condena a infidelidade do casal, mas ressalta suas conseqüências. É como o tal “ponto final” grafado no título: o triunfo pode ser conseqüência do talento, mas também é necessário um bocado de sorte algumas vezes. Allen é cuidadoso em não tomar partido sobre as ações dos personagens: em parte todos são culpados, claramente referenciado ao livro “Crime e Castigo” de Dostoievski, citado algumas vezes durante a história.

 

Os méritos, porém, não cabem somente ao diretor e roteirista Allen como também aos protagonistas sob seu comando. Johansson, particularmente, nem parece a menina por quem Bill Murray se apaixonou em “Encontros e Desencontros”, esbanjando sensualidade a cada cena. Por todas estas virtudes, “Ponto Final” é desde já um dos melhores filmes do ano – mas também pode ser um dos piores para o público adepto às respostas fáceis. A julgar pelas três únicas pessoas que me fizeram companhia na sessão, a segunda opção deverá prevalecer.

 

Match Point

Dirigido por Woody Allen. Com: Jonathan Rhys-Meyers, Scarlett Johansson, Emily Mortimer, Brian Cox, Matthew Goode.

Terror tailandês supera produções americanas

Filmes de terror são tão propensos a serem porcarias descartáveis que fica difícil acreditar na qualidade de algum novo exemplar quando este chega ao cinema. Afinal, como dar credibilidade a mais uma produção vinda do Oriente com um o espírito de uma jovem de cabelos compridos como algoz? Para piorar, a insistente tentativa dos americanos em “ocidentalizar” esses filmes (como “O Chamado”, “O Grito” e “Água Negra”) desgastou a fórmula e praticamente afastou o público das obras de origem – no caso, as produções originais e com qualidade superior às suas refilmagens. Justamente por isso que este “Espíritos – A Morte Está ao Seu Lado” é tão surpreendente. Sem uma trama realmente inovadora, o filme tailandês cumpre com louvor sua missão e é realmente apavorante.

 

A similaridade entre “Espíritos” e outras realizações asiáticas do gênero não se resume apenas ao tal espírito-da-jovem-de-cabelos-compridos como também à batida premissa: um casal dirige embriagado durante a noite e acidentalmente atropela uma pedestre. Com medo de represálias, se negam a prestar socorro e fogem do local. Logo, porém, percebem alguns indícios e concluem que estão sendo perseguidos pelo espírito da vítima. Neste caso, os sinais são fachos de luz e estranhos vultos que aparecem em fotografias – antecedentes de aparições do próprio fantasma, aqui batizado de Natre.

 

Depois de estabelecer a trama em apenas 15 minutos, os diretores Banjong Pisanthanakun e Parkpoom Wongpoom finalmente oferecem ao público o que ele quer: sustos. E não são poucos. Na tentativa de encontrar respostas aos misteriosos sinais, o casal se depara com situações arrepiantes que cada vez mais confirmam a ameaça do espírito vingativo. Ainda assim os cineastas são habilidosos em não fornecer respostas conclusivas, apresentando uma série de situações que fazem o espectador duvidar da existência de elementos sobrenaturais nas fotografias.

 

Ao contrário do que poderia se imaginar, “Espíritos” é ainda tecnicamente muito bem realizado. Quase sempre colocando os protagonistas em locais escuros e vazios, os diretores criam tomadas sufocantes – principalmente nas cenas de “perseguição”, quando a dupla opta por ângulos mais inusitados. Além disso, evitam o uso excessivo da trilha sonora para criar tensão e sem acordes estridentes nos momentos de suspense. Ajuda também o fato dos atores principais serem desconhecidos, se comportando como pessoas normais e não estereótipos.

 

Novamente seguindo a “regra” do gênero (“O Sexto Sentido” continua fazendo escola), claro que “Espíritos” precisa terminar com uma conclusão surpreendente. Felizmente o filme consegue manter a lógica e dá uma resposta bastante satisfatória (claro, obedecendo às regras do filme).

 

“Espíritos” é uma grata surpresa para fãs do gênero. Pode não marcar época, mas com certeza irá agradar o público ávido por sustos. Ah...até o momento nenhum produtor americano ainda demonstrou interesse em criar uma versão americana do filme. Mas é questão de tempo para assistirmos um Josh Harnett e uma Lindsay Lohan fugindo da fantasma fotogênica.

 

Shutter

Dirigido por Banjong Pisanthanakun e Parkpoom Wongpoom. Com: Ananda Everingham, Natthaweeranuch Thongmee, Achita Sikamana
Mais testosterona e (ainda) menos inteligência

Assim como o primeiro episódio da série, “Anjos da Noite – A Evolução” é destinado exclusivamente a um público muito específico. Fãs de videogame, RPG, heroínas vestidas com colantes roupas de couro e filmes de terror irão se deleitar com a seqüência de “Underworld”, filme de razoável sucesso de 2004 mas que conseguiu criar uma leva de admiradores. Quem não é adepto a este tipo de produção deve passar longe do cinema - nem adianta o diretor Len Wiseman criar uma abertura cheio de aspectos filosóficos e históricos. “Anjos de Noite” é mesmo uma diversão acéfala e que copia descaradamente alguns elementos de Matrix, mas com certeza irá agradar seus seguidores.

 

O roteiro tem início após a morte do vilão Viktor (como mostrado em “Underworld”) e a fuga da vampira Selene (Kate Beckinsale) e do seu amado lobisomem Michael (Scott Speedman). Claro que surgem novos algozes para o casal proibido, no caso o vampiro Marcus (Tony Curran) e seu pai Alexander (Derek Jacobi), que por motivos distintos querem algo com a vampira. Nem que para isso precisem explodir metade de cidade e matar quem atravessa o caminho.

 

Na verdade a história é o que menos interessa em “Evolução”. Concentrando-se ainda mais na ação e deixando de lado qualquer trama conspiratória, todo esse fiado de trama se desenvolve em no máximo dez minutos, prólogo para cenas de pancadaria, explosões e muita sangüinolência. Ah, e para deixar hormônios em ebulição há uma cena de sexo bastante sensual entre os personagens principais, para delírio dos amantes de Beckinsale (obviamente Wiseman tem muito cuidado em não deixar explícito partes íntimas da protagonista, sua esposa fora das telas).

 

Aliás, exibir suas generosas curvas é o único atrativo da atriz. Não que a personagem exija um vasto potencial dramático, mas também não precisava resumir sua atuação em caras e bocas ora de maldade, ora de romantismo, ora de sensualidade. Pior mesmo só a atuação de Speedman – como herói do filme espera-se pelo menos um certo carisma do ator, algo inexistente.

 

Porém o filme cumpre o que promete ao seu público-alvo. A “evolução” do título está presente nas cenas de ação e em efeitos visuais muito mais elaborados. Se o primeiro exemplar da série se resumia a tiroteios com pistolas automáticas bacanas, este “Anjos da Noite” é recheado de vampiros voadores, helicópteros caindo e muita, muita barulheira. Tirando alguns flashbacks e poucos diálogos, todo o tempo é dedicado aos decibéis. 

Como era de se esperar, “Anjos da Noite” termina deixando um bocado de perguntas sem resposta, indícios de uma inevitável terceira parte. Não que isso seja necessariamente um problema, afinal diretor, elenco e equipe de produção precisam trabalhar para pagar suas contas – e nada melhor que investir num projeto com lucro garantido. Mas o público esteja avisado: se sua intenção é comer pipoca e se divertir, essa é a pedida. Se quiser queimar alguns neurônios melhor ver o que está passando no cinema ao lado.

Underworld: Evolution
Dirigido por Len Wiseman. Com: Kate Beckinsale, Scott Speedman, Tony Curran, Derek Jacobi, Bill Nighy.

“Crash”: Vítima do preconceito de um Oscar preconceituoso

É fato: o Oscar de 2006 será eternamente lembrado. Não por ter sido uma boa cerimônia, com clipes relembrando bons momentos da história do cinema ou por ter vencedores aclamados e discursando euforicamente. Mas sim porque justamente no prêmio mais importante da noite, o de melhor filme, a Academia provou mais uma vez ser hipócrita e interessada somente no sucesso comercial de seu produto. Ao tirar a estatueta dada como certa para “O Segredo de Brokeback Mountain” e entregá-la para “Crash – No Limite”, os votantes do Oscar deixaram explícito que se sentiriam desconfortáveis em premiar a história do romance entre dois homens. Para evitar problemas com instituições mais conservadores, fizeram o reparte dos prêmios. Não aclamaram nenhum vencedor absoluto, deram o Oscar de melhor diretor para Ang Lee (de “Brokeback”) e o de melhor produção para um filme em sintonia com os vencedores das outras 78 edições.

 

Conforme muitos especialistas apontaram, talvez “Brokeback” realmente não tenha sido o melhor filme de 2005, mas merecia ganhar o Oscar num ano em que foram valorizadas produções liberais e com temáticas bem mais políticas, como “Syriana”, “Boa Noite e Boa Sorte” e “Capote”. Qualidade há muito tempo não deixou de ser o critério principal da premiação. E se muitos julgavam o sucesso das campanhas comerciais como principal responsável pelo êxito do filme, hoje podem adicionar à lista de “critérios de produções feitas para ganhar o Oscar” se a história pode ou não chocar os puritanos da sociedade americana.

 

Os produtores de “Crash” com certeza não estão nem aí, mas é certo que seu filme irá ser lembrado como “o vencedor que tirou o Oscar do filme dos caubóis gays”. Infelizmente é uma pena. Mesmo sendo inferior ao adversário, a produção dirigida por Paul Haggis (roteirista de “Menina de Ouro”) é uma ótima produção, com atuações impecáveis e história capaz de levar o público às lágrimas.

 

Com uma estrutura narrativa bastante similar ao excepcional “Magnólia”, no qual um acontecimento desenrola a trama de diversos outros personagens, “Crash” tem início quando a esposa de um rico promotor tem seu automóvel roubado por dois negros. Seria um crime qualquer, mas um acidente posterior altera o destino de diversos habitantes de Los Angeles, sempre cercados pelos preconceitos raciais, étnicos ou de classes sociais.

 

É irônico até. Se “Crash”, um filme que tem o preconceito em suas diversas formas como tema central tirou o Oscar de Brokeback Mountain somente pelo filme narrar uma história homossexual, o Oscar foi...preconceituoso!? Não que a obra de Paul Haggis trate o tema com superficialidade. Sem tentar ser um estudo definitivo sobre o tema, o filme se posiciona como um retrato do assunto para provocar reflexão no espectador. Não são raros os momentos em que mesmo os não-preconceituosos acabam questionando seus atos. E é justamente por essa coragem em abordar os temas que reside a principal virtude da produção. Ao invés de ser conhecido por méritos próprio, “Crash” entra para a posteridade por um motivo tão besta.

 

Crash

Dirigido por Paul Haggis. Com: Don Cheadle, Matt Dillon, Ryan Phillippe, Terrence Howard, Sandra Bullock, Jennifer Esposito, William Fichtner, Brendan Fraser, Thandie Newton.
A falta de respeito com as memórias das gueixas

Muita gente tem comentado da falta de respeito dos produtores de “Memórias de Uma Gueixa”, que escalaram atrizes chinesas para interpretar figuras tradicionais da cultura japonesa. Para grande parte do público a troca realmente não faz muita diferença, até mesmo porque o elenco é bastante eficiente. Mas é inegável a falta de tato dos norte-americanos, que preferiram ter rostos conhecidos como protagonistas de seu filme a serem fiéis com a cultura que deveriam retratar. E se até nisso o tema é tratado com desleixo não dava para imaginar maior apreço do diretor Rob Marshall pela sua obra.

 

Não bastasse essa postura ignorante dos produtores, “Memórias de Uma Gueixa” comete uma série de outros crimes contra a cultura nipônica. Só para constar, a palavra gueixa significa “pessoa da arte”, e no Japão pós-Segunda Guerra estas acompanhantes eram muito utilizadas por pessoas do alto-escalão. Mas o sexo não era item obrigatório no acordo entre contratante e contratada, diferenciando estas acompanhantes das prostitutas tradicionais.

 

No filme acompanhamos a trajetória de Sayuri, desde sua entrega ainda menina para uma casa de gueixas até se tornar a desejada Kyoto. Como é de praxe em roteiros sem imaginação, uma outra gueixa (neste caso com o nome de Hatsumomo) percebe estar perdendo espaço para Kyoto, e faz de tudo para prejudicá-la. Ah, sim, e também há um figurão solitário, rico, que se apaixona pela personagem principal e decide enfrentar os preconceitos para tirá-la daquela vida.

 

Ao invés de centrar a narrativa nos esforços de uma menina em se destacar num mundo totalmente machista e preconceituoso, é a história de amor bobinha e as ações da vilã odiosa que preenchem as mais de duas horas de projeção. Não é preciso muito esforço para imaginar qual o destino de cada personagem, e neste quesito “Memórias” consegue ser totalmente inócuo. Só no final o roteiro investe numa daquelas reviravoltas mirabolantes, mas soa absolutamente forçada e sem lógica.

 

Para compensar a falta de inteligência do roteiro, o diretor Rob Marshall comprova sua capacidade já demonstrada no premiadíssimo “Chicago”, seu primeiro filme, e trabalha com uma cenografia maravilhosa. Tecnicamente a produção é perfeita, um dos filmes mais lindos dos últimos anos. Desde a trilha sonora de John Williams até a cenografia, que evita ser uma simples recriação de época para se tornar uma explosão de cores e luz. Todas as seis indicações técnicas ao Oscar são merecidas, dignas até mesmo de ganhar alguns prêmios no próximo 5 de março.

 

Mas o grande pecado de “Memórias de Uma Gueixa” é deixar de investir no drama e nas dúvidas das gueixas, geralmente meninas pobres que saem ainda criança de casa, para tentar estabelecer um romance proibido entre dois personagens. E novamente fica explícito a falta de respeito com o tema central: do jeito que são retratadas no roteiro, as gueixas parecem prostitutas de luxo, acompanhantes apenas mais caras que outras garotas de programa. Se fosse para ser deste jeito, nem precisava levar a história até o Japão.

 

Memoirs of a Geisha

Dirigido por Rob Marshall. Com: Ziyi Zhang, Gong Li, Michelle Yeoh, Tsai Chin, Kaori Momoi, Suzuka Ohgo, Ken Watanabe.
Apenas uma cópia mal-feita do inspetor Clouseau

Apagam-se as luzes da sala, começa a projeção de “A Pantera de Cor de Rosa”, versão 2006. Aparecem algumas piadinhas sem graça, e até que enfim entram os créditos iniciais, marca registrada da série criada por Blake Edwards na década de 60. A trilha sonora de Henry Mancini e o desenho animado da divertida pantera são os mesmos, os momentos cômicos igualmente divertidos. Mas a animação acaba, e quando surge o nome do diretor Shawn Levy termina também a graça do filme.

 

Faltam idéias novas para Hollywood, fato de conhecimento universal e até o momento sem expectativa de se encerrar. E nada melhor que pegar velhas histórias e reciclá-las para um novo público. Afinal, o material é de qualidade e sempre vai haver interessados em assistir a refilmagem e fazer comparações, certo? Parece fácil, mas a qualidade discutível das últimas “reinvenções” fez pairar uma nuvem negra sobre qualquer nova roupagem dada aos clássicos. Porém o mínimo que se espera e vontade dos realizadores de pelo menos assistir ao material do qual vão se basear antes de transformá-lo num novo caça-níqueis.

 

Não é o caso deste “A Pantera Cor de Rosa”. Fica difícil pensar que Steve Martin (um dos produtores do novo filme e protagonista) e Shawn Levy (responsável pelos horríveis “Doze é Demais” e “Recém-Casados”) assistiram aos clássicos de Blake Edwards, com o divertidíssimo Peter Sellers interpretando o inspetor Clouseau. Só assim para compreender como tiveram a capacidade de conceber tamanho disparate com o personagem.

 

Na versão falsificada de 2006, o Inspetor Clouseau é encarregado de encontrar o assassino do técnico da seleção francesa de futebol, morto dentro do gramado após uma vitória heróica. Além de matar o pobre coitado, o meliante rouba o diamante pantera cor-de-rosa, de posse do treinador. Mas a escolha do atrapalhado Clouseau é apenas um disfarce para a mídia, enquanto a verdadeira a missão está sob cuidados do astuto inspetor Dreyfus (Kevin Kline).

 

Em primeiro lugar, o Clouseau de Peter Sellers não era um paspalho como o de Steve Martin. Era sim desajeitado, alheio às coisas que aconteciam ao seu redor e quase sempre envolto sem querer em uma confusão. A versão genérica não passa de um Frank Drebin (da série “Corra que a Polícia Vem Aí”) sem graça, uma sobra de “Todo Mundo em Pânico” mal incorporada.

 

Além disso, o filme da década de 60 era uma comédia inteligente, adulta e até politicamente incorreta. Em 2006, sabe-se lá o motivo, acharam que o filme deveria ser destinado ao público infantil, com piadinhas envolvendo flatulência e quedas espalhafatosas. Dá até para imaginar pais desesperados na saída do cinema, respondendo aos filhos o porquê da pantera animada aparecer apenas por alguns poucos minutos.

 

Claro que em 95 minutos de projeção ainda salvam-se algumas poucas piadas, como a tentativa de Clouseau de falar inglês e o incidente envolvendo um globo terrestre gigante. São poucos os momentos que impedem “A Pantera Cor de Rosa” (versão sem hífen no nome, de 2006) de ser uma desastre completo. É, no máximo, uma piada mal contada, repetitiva e feita apenas para ganhar dinheiro.

The Pink Panther
Dirigido por Shawn Levy. Com: Steve Martin, Kevin Kline, Beyoncé Knowles

“Johnny e June” segue cartilha das cinebiografias

É bastante provável que no Brasil a passagem de “Johnny e June” pelos cinemas brasileiros seja bastante discreta. Um dos maiores ídolos da música country americana, Johnny Cash teve uma carreira brilhante durante cinco décadas, mas seu talento não chegou tão maciçamente ao público brasileiro. Por isso mesmo o filme foi lançado aqui como uma comédia romântica qualquer, dessas que entopem das salas durante todo o ano. A própria tradução do título (“Walk The Line”, algo como “andando na linha”, bem mais relacionada à vida conturbada do cantor) foi trocada pelo nome do casal protagonista. Não deixa de ser uma história de amor, mas “Johnny e June” é bem mais que isso.

 

Na verdade o diretor James Mangold seguiu certinho a cartilha de “filmes-adaptação da vida de um ídolo da música”. É uma história centrada na ascensão, queda e redenção de Cash, sua vida familiar conturbada, seu envolvimento com drogas e a presença da mulher amada para confortá-lo dos traumas. Foi assim com “The Doors” e o mais recente “Ray”, comparações inevitáveis e cujo trabalho do elenco acaba se tornado item mais louvável da produção.

 

Em princípio a escalação de Joaquim Phoenix para interpretar Johnny Cash parece equivocada. Basta olhar fotos do astro da música para perceber a pouca semelhança entre eles. Cash era alto, tinha o rosto surrado mesmo nos primeiros anos de carreira, bem o oposto do hollywoodiano Phoenix. Reese Whiterspoon também não é o melhor exemplo de atriz para lhe entregar um papel com tamanha carga dramática, no caso June Carter, segunda esposa e grande amor da vida do músico.

 

Mas, surpreendentemente, os dois estão impecáveis. Phoenix não é necessariamente um ator ruim, mas se supera graças à paixão com que encarou o personagem. A voz grave e os trejeitos de um Cash conhecidamente mal humorado compõem uma personificação irretocável, até superior a de Jamie Foxx como Ray Charles em “Ray”. Já Whiterspoon consegue absorver toda a doçura e o pulso firme de Carter. Não parece nem a sombra da mediocridade da pseudo-atriz de comédias românticas.

 

Outro ponto positivo de “Johnny e June” é não tentar entupir nas duas horas de filme toda a trajetória do cantor. O filme foca apenas o período entre 1952 e 1968, quando Cash começou a ganhar fama e correu atrás do amor de Carter, cantora e comediante de sucesso da época. Claro que a toda hora pipocam flashbacks narrando os dramas dos personagens sem uma forma coesa, momentos inseridos com o único intuito de provocar comoção na platéia.

 

Dentro das regras dos “filmes-adaptação da vida de um ídolo da música”, “Johnny e June” até fica com o saldo positivo. É bem feito, com boas interpretações e até certo ponto mostra com fidelidade a vida do personagem principal. Mas o desafio ainda parece longe de um fim. Afinal, quando uma cinebiografia não vai apelar para todos estes elementos que, mesmo funcionando, colocam todas as produções dentro de um lugar comum? A julgar pela quantidade de indicações ao Oscar de “Johnny e June” ainda vai demorar muito tempo.

 

Walk the Line

Dirigido por James Mangold. Com: Joaquin Phoenix, Reese Whiterspoon, Ginnifer Goodwin, Robert Patrick, Dallas Roberts
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